
Eu nada pensava quando me peguei observando seus copos. Ele bebia água, ela caipirinha. O significado daquilo ultrapassava a barreira do simples fato, era mais que lembranças, planos, sonhos… Era uma irônica semelhança que eu construía em frases tentando expressar e esconder o que aquela cena despertava em mim, criando ideias e imaginando fatos que talvez não passassem nem perto de ser metáforas de suas realidades. Ele tinha cara de cama, cheirava a livro e vestia aquela calça e camiseta que estavam jogadas na cadeira de seu quarto desde o dia anterior. Ela tinha cara de metrópole, cheirava a sonho e não dispensava o vestido que a deixava em sintonia com a tarde ensolarada. Ele tinha acabado de acordar com a ligação dela para almoçarem juntos, tomara uma xícara de café forte e fazia a típica refeição paulistana às 3 da tarde, resumindo café da manhã, almoço e jantar a um prato quente servido em um boteco. Ela acordara cedo, tinha tomado uma caneca de café com leite e comido um pão com manteiga as 8 da manhã, depois havia andado pelas ruas da metrópole observando as mesmas caras sempre desconhecidas, quando se deu conta de que já passava da 1 e meia da tarde e precisava de companhia para almoçar. Ele amava seus livros e tudo novo que apendia, gostava de observar, as vezes se valia de uma alienação que ele mesmo abominava e possuía um gosto musical um tanto quanto duvidoso. Ela gostava de perseguir seus sonhos e não deixava objetivos meio acabados, era um tanto quando teimosa, as vezes achava que sabia tudo e não trocava o fascínio da bossa nova e as belas canções de Chico e Caetano por qualquer falsa melodia bem tocada. Eles de nada pareciam e de tudo se combinavam. Ele não trocava a menina impaciente por qualquer outra que passasse o dia a ler livros com ele. Ela não trocava o menino dos cabelos bagunçados por qualquer outro engravato que bebesse vinho com ela. A sintonia daquela antítese era espantosa até mesmo para o mais sábio dos poetas, não se resumia aos beijos e mordidas trocados, era composta pela mais bela melodia que os unia em uma harmonia perfeita demais até para Beethoven. Era tão estranho de se pensar que tudo isso se resumia a um simples fato, ele bebia água e ela caipirinha.
- Heloisa Massaro