Era agosto quando as flores começaram a florescer, meio fora de época, sem avisar elas surgiram no jardim, transformando-o em uma aquarela invejável. Havia já um ano desde que elas se foram, suas folhas caíram as poucos e um vento impiedoso fizera com que todas as flores sumissem, antes mesmo que chegasse a primavera. Colhi algumas das novas flores, menos que da última vez, deixei a maioria no jardim, esperando que elas durassem para pudesse colhe-las no outono. As poucas que colhi coloquei em um vaso, porém elas logo secaram e se encheram de espinhos. Guardei-as junto com as lembranças das anteriores, dentro de um velho baú que não abria havia tempos, ele cheirava passado, saudade e dor, causando-me uma nostalgia imensa.
Sentei a sombra para esperar pelas minhas flores até o outono, mas dessa vez trouxe um livro comigo, não queria me dedicar somente a elas para que terminassem por ser levadas pelo vento. As vezes regava-as e cheirava-as esperando que sobrevivessem até o outono, mesmo que negasse essa esperança a mim mesma. Era uma noite fria de novembro, durante a primavera, que senti uma brisa bagunçando meus cabelos. Essa brisa logo transformou-se em um vento e, mesmo com um enorme aperto no coração, eu assisti as flores serem levadas pelo vento. Observei inerte cada pétala sendo arrancada, cada aroma que me era tirado e cada botão que era destruído antes mesmo de desabrochar.
Ao fim do vendaval levantei-me e entrei em casa, enquanto algumas gotas de chuva caiam atrás de mim. Limpei meus sapatos, balancei minha saia, prendi meus cabelos e fui viver minha vida, esperando até que as flores reapareçam, mesmo que negue essa esperança a mim mesma.
- Heloisa Massaro